A
Epistemologia na Educação Ambiental busca investigar o que é o ser
esse meio ambiente que tanto se fala, esse objecto de conhecimento
tão complexo que emerge do campo da eternidade e nos foge da
compreensão.
É
deste modo que o grupo pretende apresentar as diferentes correntes em
educação ambiental. A noção de corrente que se refere aqui é uma
maneira geral de conceber e de praticar a educação ambiental.
Estas
correntes apresentam características distintas, mas todas elas
possuem objectivos em comum.
Apresentamos
quinze correntes epistemológicas da educação ambiental. Algumas
têm uma tradição mais antiga e foram dominantes nas primeiras
décadas da Educação Ambiental (1970-1980). Outras correspondem a
preocupações foram surgindo recentemente.
Cada
uma das correntes aqui destacadas será apresentada em função dos
seguintes parâmetros:
– A
concepção dominante do meio ambiente;
– A
intenção central da educação ambiental;
– Os
enfoques privilegiados;
– Exemplos
de estratégias ou de modelos que ilustram a corrente.
Esta
sistematização deve ser vista como uma proposta teórica e
vantajosa, e que seja o objecto de discussões críticas.
Entre
as correntes que têm uma longa tradição em educação ambiental,
destacamos as seguintes:
• A
corrente naturalista;
• A
corrente conservacionista/recursista;
• A
corrente resolutiva;
• A
corrente sistémica;
• A
corrente científica;
• A
corrente humanista;
• A
corrente moral/ética.
Entre
as correntes mais recentes destacamos as seguintes:
• A
corrente holística;
• A
corrente biorregionalista;
• A
corrente práxica;
• A
corrente crítica;
• A
corrente feminista;
• A
corrente etnográfica;
• A
corrente da eco educação;
• A
corrente da sustentabilidade.
A
Corrente Naturalista
Esta
corrente é centrada na relação com a natureza. O enfoque educativo
pode ser cognitivo (aprender com coisas sobre a natureza),
experiencial (viver na natureza e aprender com ela), afectivo,
espiritual ou artístico (associando a criatividade humana à da
natureza). A tradição da corrente naturalista é certamente muito
antiga, se consideramos as lições de coisas ou a aprendizagem por
imersão e imitação nos grupos sociais cuja cultura está
estreitamente forjada na relação com o meio natural.
No
decorrer do último século, a corrente naturalista pode ser
associada mais especificamente ao movimento de educação para o meio
natural e a certas proposições de educação ao ar livre. As
proposições da corrente naturalista com frequência reconhecem o
valor da natureza, além dos recursos que ela proporciona e do saber
que se possa obter dela.
A
Corrente Conservacionista/Recursista
Esta
corrente agrupa as proposições centradas na conservação dos
recursos, tanto no que concerne à sua qualidade como à sua
quantidade: a água, o solo, a energia, as plantas (principalmente as
plantas comestíveis e medicinais) e os animais (pelos recursos que
podem ser obtidos deles), o património genético, o património
construído. Quando se fala de conservação da natureza como da
biodiversidade.
A
Corrente Resolutiva
A
corrente resolutiva surgiu em princípios dos anos 70, quando se
revelaram a amplitude, a gravidade e aceleração crescente dos
problemas ambientais. Agrupa proposições em que o meio ambiente é
considerado principalmente como um conjunto de problemas. Esta
corrente adopta a visão central de educação ambiental proposta
pela UNESCO no contexto de seu Programa internacional de educação
ambiental (1975-1995). Trata-se de informar ou de levar as pessoas a
se informarem sobre problemáticas ambientais, assim como a
desenvolver habilidades voltadas para resolvê-las. Como no caso da
corrente conservacionista/recursista, à qual a corrente resolutiva
está frequentemente associada, se encontra aqui um imperativo de
acção: modificação de comportamentos ou de projectos colectivos.
Uma
das proposições mais destacadas da corrente resolutiva é
certamente a de Harold R. Hungerford e colaboradores da Southern
Illinois University (1992), que desenvolveram um modelo pedagógico
centrado no desenvolvimento sequencial de habilidades de resolução
de problemas. Segundo estes pesquisadores, a educação ambiental
deve estar centrada no estudo de problemáticas ambientais
(environmental issues), com seus componentes sociais e biofísicos e
suas controvérsias inerentes.
A
Corrente Sistémica
O
enfoque sistêmico permite conhecer e compreender adequadamente as
realidades e as problemáticas ambientais. A análise sistêmica
permite identificar os diferentes componentes de um sistema ambiental
e salientar as relações entre seus componentes, como as relações
entre os elementos biofísicos e os elementos sociais de uma situação
ambiental.
Esta análise é uma etapa essencial que permite obter em seguida uma
visão de conjunto que corresponde a uma síntese da realidade
apreendida.
Chega-se
assim à totalidade do sistema ambiental, cuja dinâmica não só
pode ser percebida e compreendida melhor, como também os pontos de
ruptura e as vias de evolução. As habilidades ligadas à análise e
à síntese são particularmente necessárias.
A
corrente sistêmica em educação ambiental se apóia, entre outras,
nas contribuições da ecologia, ciência biológica
transdisciplinar, que conheceu seu auge nos anos de 1970 e cujos
conceitos
e princípios inspiraram o campo da ecologia humana.
Em
Israel, Shoshana Keiny e Moshe Shashack (1987) desenvolveram um
modelo pedagógico centrado no enfoque sistêmico: uma saída a campo
permite observar uma realidade ou fenômeno ambiental e analisar seus
componentes e relações, a fim de desenvolver um modelo sistêmico
que permita chegar a uma compreensão global da problemática em
questão; esta visão de conjunto permite identificar e escolher
soluções mais apropriadas.
A
Corrente Cientifica
Algumas
proposições de educação ambiental dão ênfase ao processo
científico, com o objetivo de abordar com rigor as realidades e
problemáticas ambientais e de compreendê-las melhor, identificando
mais especificamente as relações de causa e efeito. O processo está
centrado na indução de hipóteses a partir de observações e na
verificação de hipóteses, por meio de novas observações ou por
experimentação. Nesta corrente, a educação ambiental está
seguidamente associada ao desenvolvimento de conhecimentos e de
habilidades relativas às ciências do meio ambiente, do campo de
pesquisa essencialmente interdisciplinar para a
transdisciplinaridade. Como na corrente
sistêmica,
o enfoque é sobretudo cognitivo: o meio ambiente é objeto de
conhecimento
para
escolher uma solução ou ação apropriada. As habilidades ligadas à
observação e à experimentação são particularmente necessárias.
A
Corrente Humanista
Esta
corrente dá ênfase à dimensão humana do meio ambiente, construído
no cruzamento da natureza e da cultura. O ambiente não é somente
apreendido como um conjunto de elementos biofísicos, que basta ser
abordado com objetividade e rigor para ser melhor compreendido, para
interagir melhor. Corresponde a um meio de vida, com suas dimensões
históricas, culturais, políticas, econômicas, estéticas. Não
pode ser abordado sem se levar em conta sua significação, seu valor
simbólico. O patrimônio não é somente natural, é igualmente
cultural: as construções e os ordenamentos humanos são testemunhos
da aliança entre a criação humana e os materiais e as
possibilidades da natureza. A arquitetura, entre outros elementos, se
encontra no centro desta interação. Neste caso, a porta de entrada
para apreender o meio ambiente é frequentemente a paisagem. Esta
última é seguidamente modelada pela atividade humana; ela fala ao
mesmo tempo da evolução dos sistemas naturais que a compõem e das
populações humanas que estabeleceram nela suas trajetórias.
A
Corrente Moral/Ética
Muitos
educadores consideram que o fundamento da relação com o meio
ambiente é de ordem ética, pois, é neste nível que se deve
intervir de maneira prioritária. O actuar baseia-se num conjunto de
valores, mais ou menos conscientes e coerentes entre eles. Assim,
diversas proposições de educação ambiental dão ênfase ao
desenvolvimento dos valores ambientais. Alguns convidam para a adoção
de uma moral ambiental, prescrevendo um código de comportamentos
socialmente desejáveis como os que o eco
civismo
propõe, mas mais fundamentalmente ainda, pode se tratar de
desenvolver uma verdadeira competência ética, e de construir seu
próprio sistema de valores. Não somente é necessário saber
analisar os valores dos protagonistas de uma situação como,
antes
de mais nada, esclarecer seus próprios valores em relação ao seu
próprio actuar. A análise de diferentes correntes éticas, como
escolhas possíveis, torna-se aqui uma estratégia muito apropriada.
A
Corrente Holística
O
enfoque desta corrente é exclusivamente analítico e racional das
realidades ambientais se encontra na origem de muitos problemas
atuais. É preciso levar em conta não apenas o conjunto das
múltiplas dimensões das realidades socioambientais como também das
diversas dimensões da pessoa que entra em relação com estas
realidades, da globalidade e da complexidade de seu ser no mundo. O
sentido global aqui é muito diferente do planetário, significa
antes holístico referindo-se à totalidade de cada ser, de cada
realidade, e à rede de relações que une os seres entre si em
conjuntos onde eles adquirem sentido. A corrente holística não
associa proposições necessariamente homogêneas, como é o caso das
outras correntes. Algumas proposições, por exemplo, estão mais
centradas em preocupações de tipo psicopedagógico apontando para o
desenvolvimento global da pessoa em relação ao seu meio ambiente,
outras estão ancoradas numa verdadeira cosmologia (ou visão do
mundo) em que todos os seres estão relacionados entre si, o que leva
a um conhecimento orgânico do mundo e a um actuar participativo em e
com o ambiente.
Numa
perspectiva holística mais fundamental ainda, Nigel Hoffmann (1994)
se inspira no filósofo Heidegger e no poeta naturalista Goethe para
propor um enfoque orgânico das realidades ambientais. Devem-se
abordar, efetivamente, as realidades ambientais de uma maneira
diferente daquelas que contribuíram para a deterioração do meio
ambiente. O processo de investigação não consiste em conhecer as
coisas a partir do exterior, para explicálas, originando de uma
solicitação, de um desejo de preservar seu ser essencial
permitindo-lhes
revelar-se com sua própria linguagem.
A
Corrente Biorregionalista
A
corrente biorregionalista se inspira geralmente numa ética
ecocêntrica e centra a educação ambiental no desenvolvimento de
uma relação preferencial com o meio local ou regional, no
desenvolvimento de um sentimento de pertença a este último e no
compromisso em favor da valorização deste meio.
Trata-se
de aprender a reabitar a Terra, segundo as propostas de Davir Orr
(1992, 1996) e de Wendel Berry (1997). Reconhece-se aqui o caráter
inoportuno desta pedagogia do além que baseia a educação em
considerações exógenas ou em problemáticas planetárias que não
são vistas em relação com as realidades do contexto de vida e que
oferecem poucas ocasiões concretas para atuações responsáveis.
A
Corrente Práxica
A
ênfase desta corrente está na aprendizagem da acção, pela acção
e para a melhoria desta. Não se trata de desenvolver a priori os
conhecimentos e as habilidades com vistas a uma eventual ação, mas
em pôr-se imediatamente em situação de acção e de aprender
através do projecto por e para esse projeto.
A
aprendizagem convida a uma reflexão na ação, no projeto em curso.
Lembremos que a práxis consiste essencialmente em integrar a
reflexão e a ação, que, assim, se alimentam mutuamente.
O
processo da corrente práxica é, por excelência, o da
pesquisa-ação, cujo objetivo essencial é o de operar uma mudança
num meio (nas pessoas e no meio ambiente) e cuja dinâmica é
participativa, envolvendo os diferentes atores de uma situação por
transformar. Em educação ambiental, as mudanças previstas podem
ser de ordem socioambiental e educacional.
A
Corrente de Crítica Social
A
corrente práxica é muitas vezes associada à da crítica social.
Esta última se inspira no campo da “teoria crítica”, que foi
inicialmente desenvolvida em ciências sociais e que integrou o campo
da educação, para finalmente se encontrar com o da educação
ambiental nos anos de 1980 (Robottom e Hart, 1993).
Esta
corrente insiste, essencialmente, na análise das dinâmicas sociais
que se encontram na base das realidades e problemáticas ambientais:
análise de intenções, de posições, de argumentos, de valores
explícitos e implícitos, de decisões e de ações dos diferentes
protagonistas de uma situação.
A
Corrente Feminista
Em
matéria de meio ambiente, uma ligação estreita ficou estabelecida
entre a dominação das mulheres e a da natureza: trabalhar para
restabelecer relações harmônicas com a natureza é indissociável
de um projeto social que aponta para a harmonização das relações
entre os humanos, mais especificamente entre os homens e as mulheres.
A
corrente feminista se opõe, no entanto, ao predomínio do enfoque
racional das problemáticas ambientais, tal como freqüentemente se
observa nas teorias e práticas da corrente de crítica social. Os
enfoques intuitivo, afetivo, simbólico, espiritual ou artístico das
realidades do meio ambiente são igualmente valorizados. No contexto
de uma ética da responsabilidade, a ênfase está na entrega: cuidar
do outro humano e o outro como humano, com uma atenção permanente e
afetuosa.
A
Corrente Etnográfica
A
corrente etnográfica dá ênfase ao caráter cultural da relação
com o meio ambiente. A educação ambiental não deve impor uma visão
de mundo, é preciso levar em conta a cultura de referência das
populações ou das comunidades envolvidas.
A
corrente etnográfica propõe não somente adaptar a pedagogia às
realidades
culturais
diferentes, como se inspirar nas pedagogias de diversas culturas.
A
Corrente da Ecoeducação
Esta
corrente está dominada pela perspectiva educacional da educação
ambiental. Não se trata de resolver problemas, mas de aproveitar a
relação com o meio ambiente como cadinho de desenvolvimento
pessoal, para o fundamento de um atuar significativo e responsável.
O meio ambiente é percebido aqui como uma esfera de interação
essencial para a ecoformação ou para a ecoontogênese.
Distinguiremos aqui estas duas proposições, muito próximas ambas,
no entanto distintas, principalmente em relação a seus respectivos
contextos de referência.
A
Corrente da Sustentabilidade
A
ideologia do desenvolvimento sustentável que conheceu sua expansão
em meados dos anos de 1980, penetrou pouco a pouco o movimento da
educação ambiental e se impôs como uma perspectiva dominante. Para
responder as recomendações do Capítulo 36 da Agenda 21, resultante
da Cúpula da Terra em 1992, a UNESCO substituiu seu Programa
Internacional de Educação Ambiental por um Programa de Educação
para um futuro viável (UNESCO, 1997), cujo objetivo é o de
contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável. Este
último supõe que o desenvolvimento econômico, considerado como a
base do desenvolvimento humano, é indissociável da conservação
dos
recursos naturais e de um compartilhar eqüitativo dos recursos.
Trata-se de aprender a utilizar racionalmente os recursos de hoje
para que haja suficientemente para todos e se possa assegurar as
necessidades do amanhã.
A
educação ambiental torna-se uma ferramenta, entre outras, a serviço
do desenvolvimento sustentável.
A
educação para o desenvolvimento sustentável permitiria atenuar
esta carência.
Desde
1992, os promotores da proposição do desenvolvimento sustentável
pregam uma reforma de toda a educação para estes fins. Tratava-se
de instaurar uma “nova” educação. Num documento intitulado
Reforma da educação para um desenvolvimento sustentável, publicado
e difundido pela UNESCO.
a amizade tem seu valor quando não pode ser medida, apenas existe. Do que mesmo se trata este blog?
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ResponderEliminarObrigado gente
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