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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

As Correntes Epistemológicas da Educação Ambiental

A Epistemologia na Educação Ambiental busca investigar o que é o ser esse meio ambiente que tanto se fala, esse objecto de conhecimento tão complexo que emerge do campo da eternidade e nos foge da compreensão.
É deste modo que o grupo pretende apresentar as diferentes correntes em educação ambiental. A noção de corrente que se refere aqui é uma maneira geral de conceber e de praticar a educação ambiental.
Estas correntes apresentam características distintas, mas todas elas possuem objectivos em comum.
Apresentamos quinze correntes epistemológicas da educação ambiental. Algumas têm uma tradição mais antiga e foram dominantes nas primeiras décadas da Educação Ambiental (1970-1980). Outras correspondem a preocupações foram surgindo recentemente.
Cada uma das correntes aqui destacadas será apresentada em função dos seguintes parâmetros:
A concepção dominante do meio ambiente;
A intenção central da educação ambiental;
Os enfoques privilegiados;
Exemplos de estratégias ou de modelos que ilustram a corrente.

Esta sistematização deve ser vista como uma proposta teórica e vantajosa, e que seja o objecto de discussões críticas.
Entre as correntes que têm uma longa tradição em educação ambiental, destacamos as seguintes:
A corrente naturalista;
A corrente conservacionista/recursista;
A corrente resolutiva;
A corrente sistémica;
A corrente científica;
A corrente humanista;
A corrente moral/ética.
Entre as correntes mais recentes destacamos as seguintes:
A corrente holística;
A corrente biorregionalista;
A corrente práxica;
A corrente crítica;
A corrente feminista;
A corrente etnográfica;
A corrente da eco educação;
A corrente da sustentabilidade.

A Corrente Naturalista
Esta corrente é centrada na relação com a natureza. O enfoque educativo pode ser cognitivo (aprender com coisas sobre a natureza), experiencial (viver na natureza e aprender com ela), afectivo, espiritual ou artístico (associando a criatividade humana à da natureza). A tradição da corrente naturalista é certamente muito antiga, se consideramos as lições de coisas ou a aprendizagem por imersão e imitação nos grupos sociais cuja cultura está estreitamente forjada na relação com o meio natural.
No decorrer do último século, a corrente naturalista pode ser associada mais especificamente ao movimento de educação para o meio natural e a certas proposições de educação ao ar livre. As proposições da corrente naturalista com frequência reconhecem o valor da natureza, além dos recursos que ela proporciona e do saber que se possa obter dela.

A Corrente Conservacionista/Recursista
Esta corrente agrupa as proposições centradas na conservação dos recursos, tanto no que concerne à sua qualidade como à sua quantidade: a água, o solo, a energia, as plantas (principalmente as plantas comestíveis e medicinais) e os animais (pelos recursos que podem ser obtidos deles), o património genético, o património construído. Quando se fala de conservação da natureza como da biodiversidade.


A Corrente Resolutiva
A corrente resolutiva surgiu em princípios dos anos 70, quando se revelaram a amplitude, a gravidade e aceleração crescente dos problemas ambientais. Agrupa proposições em que o meio ambiente é considerado principalmente como um conjunto de problemas. Esta corrente adopta a visão central de educação ambiental proposta pela UNESCO no contexto de seu Programa internacional de educação ambiental (1975-1995). Trata-se de informar ou de levar as pessoas a se informarem sobre problemáticas ambientais, assim como a desenvolver habilidades voltadas para resolvê-las. Como no caso da corrente conservacionista/recursista, à qual a corrente resolutiva está frequentemente associada, se encontra aqui um imperativo de acção: modificação de comportamentos ou de projectos colectivos.
Uma das proposições mais destacadas da corrente resolutiva é certamente a de Harold R. Hungerford e colaboradores da Southern Illinois University (1992), que desenvolveram um modelo pedagógico centrado no desenvolvimento sequencial de habilidades de resolução de problemas. Segundo estes pesquisadores, a educação ambiental deve estar centrada no estudo de problemáticas ambientais (environmental issues), com seus componentes sociais e biofísicos e suas controvérsias inerentes.

A Corrente Sistémica
O enfoque sistêmico permite conhecer e compreender adequadamente as realidades e as problemáticas ambientais. A análise sistêmica permite identificar os diferentes componentes de um sistema ambiental e salientar as relações entre seus componentes, como as relações entre os elementos biofísicos e os elementos sociais de uma situação
ambiental. Esta análise é uma etapa essencial que permite obter em seguida uma visão de conjunto que corresponde a uma síntese da realidade apreendida.
Chega-se assim à totalidade do sistema ambiental, cuja dinâmica não só pode ser percebida e compreendida melhor, como também os pontos de ruptura e as vias de evolução. As habilidades ligadas à análise e à síntese são particularmente necessárias.
A corrente sistêmica em educação ambiental se apóia, entre outras, nas contribuições da ecologia, ciência biológica transdisciplinar, que conheceu seu auge nos anos de 1970 e cujos conceitos e princípios inspiraram o campo da ecologia humana.
Em Israel, Shoshana Keiny e Moshe Shashack (1987) desenvolveram um modelo pedagógico centrado no enfoque sistêmico: uma saída a campo permite observar uma realidade ou fenômeno ambiental e analisar seus componentes e relações, a fim de desenvolver um modelo sistêmico que permita chegar a uma compreensão global da problemática em questão; esta visão de conjunto permite identificar e escolher soluções mais apropriadas.

A Corrente Cientifica
Algumas proposições de educação ambiental dão ênfase ao processo científico, com o objetivo de abordar com rigor as realidades e problemáticas ambientais e de compreendê-las melhor, identificando mais especificamente as relações de causa e efeito. O processo está centrado na indução de hipóteses a partir de observações e na verificação de hipóteses, por meio de novas observações ou por experimentação. Nesta corrente, a educação ambiental está seguidamente associada ao desenvolvimento de conhecimentos e de habilidades relativas às ciências do meio ambiente, do campo de pesquisa essencialmente interdisciplinar para a transdisciplinaridade. Como na corrente
sistêmica, o enfoque é sobretudo cognitivo: o meio ambiente é objeto de conhecimento
para escolher uma solução ou ação apropriada. As habilidades ligadas à observação e à experimentação são particularmente necessárias.

A Corrente Humanista
Esta corrente dá ênfase à dimensão humana do meio ambiente, construído no cruzamento da natureza e da cultura. O ambiente não é somente apreendido como um conjunto de elementos biofísicos, que basta ser abordado com objetividade e rigor para ser melhor compreendido, para interagir melhor. Corresponde a um meio de vida, com suas dimensões históricas, culturais, políticas, econômicas, estéticas. Não pode ser abordado sem se levar em conta sua significação, seu valor simbólico. O patrimônio não é somente natural, é igualmente cultural: as construções e os ordenamentos humanos são testemunhos da aliança entre a criação humana e os materiais e as possibilidades da natureza. A arquitetura, entre outros elementos, se encontra no centro desta interação. Neste caso, a porta de entrada para apreender o meio ambiente é frequentemente a paisagem. Esta última é seguidamente modelada pela atividade humana; ela fala ao mesmo tempo da evolução dos sistemas naturais que a compõem e das populações humanas que estabeleceram nela suas trajetórias.

A Corrente Moral/Ética
Muitos educadores consideram que o fundamento da relação com o meio ambiente é de ordem ética, pois, é neste nível que se deve intervir de maneira prioritária. O actuar baseia-se num conjunto de valores, mais ou menos conscientes e coerentes entre eles. Assim, diversas proposições de educação ambiental dão ênfase ao desenvolvimento dos valores ambientais. Alguns convidam para a adoção de uma moral ambiental, prescrevendo um código de comportamentos socialmente desejáveis como os que o eco civismo propõe, mas mais fundamentalmente ainda, pode se tratar de desenvolver uma verdadeira competência ética, e de construir seu próprio sistema de valores. Não somente é necessário saber analisar os valores dos protagonistas de uma situação como,
antes de mais nada, esclarecer seus próprios valores em relação ao seu próprio actuar. A análise de diferentes correntes éticas, como escolhas possíveis, torna-se aqui uma estratégia muito apropriada.

A Corrente Holística
O enfoque desta corrente é exclusivamente analítico e racional das realidades ambientais se encontra na origem de muitos problemas atuais. É preciso levar em conta não apenas o conjunto das múltiplas dimensões das realidades socioambientais como também das diversas dimensões da pessoa que entra em relação com estas realidades, da globalidade e da complexidade de seu ser no mundo. O sentido global aqui é muito diferente do planetário, significa antes holístico referindo-se à totalidade de cada ser, de cada realidade, e à rede de relações que une os seres entre si em conjuntos onde eles adquirem sentido. A corrente holística não associa proposições necessariamente homogêneas, como é o caso das outras correntes. Algumas proposições, por exemplo, estão mais centradas em preocupações de tipo psicopedagógico apontando para o desenvolvimento global da pessoa em relação ao seu meio ambiente, outras estão ancoradas numa verdadeira cosmologia (ou visão do mundo) em que todos os seres estão relacionados entre si, o que leva a um conhecimento orgânico do mundo e a um actuar participativo em e com o ambiente.
Numa perspectiva holística mais fundamental ainda, Nigel Hoffmann (1994) se inspira no filósofo Heidegger e no poeta naturalista Goethe para propor um enfoque orgânico das realidades ambientais. Devem-se abordar, efetivamente, as realidades ambientais de uma maneira diferente daquelas que contribuíram para a deterioração do meio ambiente. O processo de investigação não consiste em conhecer as coisas a partir do exterior, para explicálas, originando de uma solicitação, de um desejo de preservar seu ser essencial
permitindo-lhes revelar-se com sua própria linguagem.

A Corrente Biorregionalista
A corrente biorregionalista se inspira geralmente numa ética ecocêntrica e centra a educação ambiental no desenvolvimento de uma relação preferencial com o meio local ou regional, no desenvolvimento de um sentimento de pertença a este último e no compromisso em favor da valorização deste meio.
Trata-se de aprender a reabitar a Terra, segundo as propostas de Davir Orr (1992, 1996) e de Wendel Berry (1997). Reconhece-se aqui o caráter inoportuno desta pedagogia do além que baseia a educação em considerações exógenas ou em problemáticas planetárias que não são vistas em relação com as realidades do contexto de vida e que oferecem poucas ocasiões concretas para atuações responsáveis.

A Corrente Práxica
A ênfase desta corrente está na aprendizagem da acção, pela acção e para a melhoria desta. Não se trata de desenvolver a priori os conhecimentos e as habilidades com vistas a uma eventual ação, mas em pôr-se imediatamente em situação de acção e de aprender através do projecto por e para esse projeto.
A aprendizagem convida a uma reflexão na ação, no projeto em curso. Lembremos que a práxis consiste essencialmente em integrar a reflexão e a ação, que, assim, se alimentam mutuamente.
O processo da corrente práxica é, por excelência, o da pesquisa-ação, cujo objetivo essencial é o de operar uma mudança num meio (nas pessoas e no meio ambiente) e cuja dinâmica é participativa, envolvendo os diferentes atores de uma situação por transformar. Em educação ambiental, as mudanças previstas podem ser de ordem socioambiental e educacional.

A Corrente de Crítica Social
A corrente práxica é muitas vezes associada à da crítica social. Esta última se inspira no campo da “teoria crítica”, que foi inicialmente desenvolvida em ciências sociais e que integrou o campo da educação, para finalmente se encontrar com o da educação ambiental nos anos de 1980 (Robottom e Hart, 1993).
Esta corrente insiste, essencialmente, na análise das dinâmicas sociais que se encontram na base das realidades e problemáticas ambientais: análise de intenções, de posições, de argumentos, de valores explícitos e implícitos, de decisões e de ações dos diferentes protagonistas de uma situação.

A Corrente Feminista
Em matéria de meio ambiente, uma ligação estreita ficou estabelecida entre a dominação das mulheres e a da natureza: trabalhar para restabelecer relações harmônicas com a natureza é indissociável de um projeto social que aponta para a harmonização das relações entre os humanos, mais especificamente entre os homens e as mulheres.
A corrente feminista se opõe, no entanto, ao predomínio do enfoque racional das problemáticas ambientais, tal como freqüentemente se observa nas teorias e práticas da corrente de crítica social. Os enfoques intuitivo, afetivo, simbólico, espiritual ou artístico das realidades do meio ambiente são igualmente valorizados. No contexto de uma ética da responsabilidade, a ênfase está na entrega: cuidar do outro humano e o outro como humano, com uma atenção permanente e afetuosa.

A Corrente Etnográfica
A corrente etnográfica dá ênfase ao caráter cultural da relação com o meio ambiente. A educação ambiental não deve impor uma visão de mundo, é preciso levar em conta a cultura de referência das populações ou das comunidades envolvidas.
A corrente etnográfica propõe não somente adaptar a pedagogia às realidades
culturais diferentes, como se inspirar nas pedagogias de diversas culturas.

A Corrente da Ecoeducação
Esta corrente está dominada pela perspectiva educacional da educação ambiental. Não se trata de resolver problemas, mas de aproveitar a relação com o meio ambiente como cadinho de desenvolvimento pessoal, para o fundamento de um atuar significativo e responsável. O meio ambiente é percebido aqui como uma esfera de interação essencial para a ecoformação ou para a ecoontogênese. Distinguiremos aqui estas duas proposições, muito próximas ambas, no entanto distintas, principalmente em relação a seus respectivos contextos de referência.

A Corrente da Sustentabilidade
A ideologia do desenvolvimento sustentável que conheceu sua expansão em meados dos anos de 1980, penetrou pouco a pouco o movimento da educação ambiental e se impôs como uma perspectiva dominante. Para responder as recomendações do Capítulo 36 da Agenda 21, resultante da Cúpula da Terra em 1992, a UNESCO substituiu seu Programa Internacional de Educação Ambiental por um Programa de Educação para um futuro viável (UNESCO, 1997), cujo objetivo é o de contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável. Este último supõe que o desenvolvimento econômico, considerado como a base do desenvolvimento humano, é indissociável da conservação
dos recursos naturais e de um compartilhar eqüitativo dos recursos. Trata-se de aprender a utilizar racionalmente os recursos de hoje para que haja suficientemente para todos e se possa assegurar as necessidades do amanhã.
A educação ambiental torna-se uma ferramenta, entre outras, a serviço do desenvolvimento sustentável.
A educação para o desenvolvimento sustentável permitiria atenuar esta carência.
Desde 1992, os promotores da proposição do desenvolvimento sustentável pregam uma reforma de toda a educação para estes fins. Tratava-se de instaurar uma “nova” educação. Num documento intitulado Reforma da educação para um desenvolvimento sustentável, publicado e difundido pela UNESCO.